Em setembro de 2023, Marilene Goulart, a auxiliar de sala da rede municipal de ensino de Florianópolis, na época com 44 anos, viveu uma experiência que mudou sua vida para sempre. O que deveria ser somente uma cirurgia de redução de mama que iria melhorar sua qualidade de vida, revelou um diagnóstico assustador: o câncer de mama.
Durante o procedimento, o cirurgião plástico encontrou três nódulos suspeitos e precisou acionar o oncologista às pressas para retirá-los. A surpreendente revelação chegou até Marylene após acordar da anestesia. “Eu fui para a maca acreditando que faria apenas a redução. Quando soube que era câncer, fiquei em choque”, lembra.
O impacto não foi apenas emocional. Para realizar a cirurgia de redução de mama, ela havia vendido um veículo, e com os custos adicionais, vieram às dificuldades financeiras. A recuperação também foi mais difícil que o previsto, exigindo uso de drenos em ambas as mamas e afastamento prolongado do trabalho.
Além dos desafios físicos e financeiros, Marylene lida com o impacto na autoestima. As cicatrizes, o ganho de peso e as mudanças no corpo a deixam insegura.“Sempre fui muito vaidosa, e hoje luto contra a insegurança de não me reconhecer mais no espelho. A sociedade ainda cobra muito da mulher um padrão de beleza, e isso pesa demais quando a gente já está fragilizada”, desabafa. Para ela, a terapia psicológica tem sido fundamental no processo de aceitação e de reconstrução da confiança em si mesma.
Essa não foi a primeira vez que a auxiliar enfrentou o câncer. Aos 17 anos, em 1995, logo após a gravidez da primeira filha, foi diagnosticada com câncer no útero, associado ao HPV, um vírus bastante comum, que pode ser transmitido por contato íntimo e, em alguns casos, causar alterações nas células do colo do útero. Encontrou acolhimento em um programa de saúde para adolescentes, que se tornou sua principal rede de suporte.
O histórico familiar reforça a luta: a mãe e as tias tiveram câncer de mama e de útero, o que fez com que ela sempre procurasse acompanhamento médico. Hoje, ela vê sua experiência como uma forma de alertar outras mulheres. “O câncer de mama não tem idade. Precisamos nos apalpar, buscar orientação médica e cobrar exames. A prevenção pode salvar vidas”, afirma.
Apesar das dificuldades encontradas, Marilene, aos 46 anos, reforça que a autoestima e o autocuidado precisam ser prioridades. “É difícil lidar com as mudanças no corpo, mas aprendi que a gente precisa se amar e pedir ajuda quando necessário. Às vezes queremos ser fortes o tempo todo, mas temos o direito de ser frágeis e acolhidas”, afirma.